6 de julho de 2009

O que se deixa na vida...

Esta foi uma daquelas noites em que praticamente não dormi. Não sei bem porque, só sei que a partir das duas da manhã, acompanhei o ponteiro do relógio rodar por mais duas horas entre cochilos e breves sonhos. Às quatro da madruga pensava que quando fossem sete horas, estaria caindo de sono e tentava a todo custo pegar no sono. Lá pelas cinco e meia, o tão cassado sono resolveu vir, e eu, pensando se conseguiria levantar daqui a uma hora. Dito e feito, às 6h não levantei nem a pau. Enrolei o quanto pude na cama, rolando de um lado a outro, dando umas olhadas na hora em intervalos curtos. Eram 7: 05 da manhã e eu estava com uma preguiça maior do que eu, pensando que não queria sair de casa hoje, da minha cama quentinha e da minha sonolência tardia. 7:15 prazo máximo! Dei um pulo da cama contra a vontade, corri para não perder a hora mais do que já tinha perdido e pensava em enfrentar um chefe mal-humorado e um emprego que paga pouco com nenhum reconhecimento. Enfim... comecei meu dia, mal e eu irritada!

Insatisfeita, não sei bem se comigo ou com o mundo, caminhei a passos rápidos. Entre uma passada e outra comecei a divagar sobre várias questões pessoais e nem me dei conta disto. Lá pelo quinto assunto que entrava na minha mente involuntariamente, àquela hora da manhã, justo quando eu estava com pressa e mesmo assim não deixava de me invadir, chamou minha atenção. Então, sem conseguir pegar mais o fio da meada de meus pensamentos, resolvi deixar ele correr e ver aonde me levaria. Ontem no fantástico a atriz Mariana Ximenes gravou um clip sob a voz de Roberto Carlos e disse ter realizado um sonho, pois o gosto pelo rei começou com a mãe. Era a herança da mãe dela a ela. Após isto vir à minha mente nem sei porque raios, resolvi traçar um mapa mental das coisas que haviam sido deixadas para mim nessa minha vida:

* minha mãe me deixou além de amor incondicional a sabedoria de que independente do mundo, faça a sua parte, mesmo que aparentem não merecer. É claro que ela me deixou muito mais, como o exemplo de quem se realiza na profissão que escolheu, de como ser uma mãe dedicada e uma amiga presente. Mais acho que o maior aprendizado é que não importa os erros que teve na vida, o que faz a diferença é a forma como se tenta consertar ou se lida com eles dali pra frente. Não podendo super-elevar o passado e sim valorizar as chances do futuro! Acima de tudo a não me apegar ao que não tenho, mas perceber o que possuo.

* Minha vó além de meiguice me deixa uma generosidade imensa. E também que não importa os anos que você tem em vida e sim os que você possui dentro do coração e na cabeça. Nada é impossível nesta vida quando se quer e é perseverante.

* Com meus sobrinhos aprendo a renovar a cada dia a criança que existe dentro de mim.

* Com meu pai, não aprendi grandes coisas, com ele. Porém dele, aprendi que temos que absolver para nós aqueles que não têm consciência de seus atos em vida. Não faz bem remoer o que não foi!

* Com meu irmão aprendi que não importa as dificuldades, um dia sem sorriso é mais fatal que a própria morte.

* Com minha tia que há sempre alguém ali ao seu lado para te dar apoio, sem nem sequer saber o que está acontecendo. O que importa é o fato de você estar bem.

* Meus amigos me deixam o real significado da palavra amizade! Além da chance de poder ser eu mesma, sem receios, e de cada um conseguir ter uma palavra, um gesto, um sorriso, um olhar, um apelido, uma história única comigo.

* Os meus relacionamentos amorosos, bem-sucedidos ou não, me deixam a oportunidade de me conhecer melhor. De fortificar. De tentar fazer diferente. A possibilidade de amar sempre...

* Dos meus cachorrinhos eu levo não a subserviência, mas a certeza de ter "alguém" que confia e precisa de seus cuidados e carinho, e retribui isto da forma mais simples possível: com amor e alegria.

* Com meus amigos do trabalho a consciência que nem sempre a prosperidade profissional vai falar mais alto e compensar a satisfação pessoal. E também que não é necessário viver num casulo para se preservar do que não se conhece.

* Com as demais pessoas que compõem minha vida, sei que levarei uma infinidade de lembranças, conversas, momentos e a possibilidade da troca de experiências, da mudança do meu ser e minha história a partir delas.

Fiquei avaliando a minha lista, até que é bem extensa e sou privilegiada por tal, e pelos resultados em mim. Mas aí, veio a indagação: - tá bom, eu “herdei” um baú de incontáveis aprendizagens que fazem a diferença. Mas, o que eu estou deixando nessa vida aos demais, ao meu círculo de convívio, aos desconhecidos que por ventura podem ouvir falar de mim? Isto me despertou para um medo escondido que só tinha passado despercebido até agora por conta da questão não ter sido abordada. Tenho medo de nada ser. Da vida passar e não ver. De no futuro ser uma insignificante dentre anônimos. De não ter realmente importância e relevância de fato para as pessoas e na vida. Não quero meu nome gravado na calçada da fama, nem no livro do Guinness, nem ganhando o Nobel ou tendo estátua para eternizar a lembrança ou prédio com meu nome pelo feito “x”. Quero apenas ser lembrada, ainda em vida como... “ah, esta é Fernanda!”

A voz da mulher na plataforma de trem me trouxe de volta dos pensamentos e me empurrou de novo para a realidade. Era hora de embarcar e ir trabalhar. O frio de manhã é absurdo! Lembrei-me do longo dia pela frente e a falta de vontade voltou. Guardei a pergunta na bolsa, junto com os tópicos levantados sobre este assunto. Resolvi deixar para discorrer mais tarde, caso o sono falte novamente.

Beijos

2 comentários:

Vanessa disse...

Seu blos está lindo! Que texto maravilhoso Fê..

Parabéns!

Depois vou voltar e ler todos com calma.

bjs

Dama de Cinzas disse...

Eu sofro de insônia desde criança, já tentei de tudo e acabei caindo mesmo no tarja preta, e liguei o foda-se... rs

Queria muito saber o porque da gente perder o sono durante a noite e o sono voltar pesado exatamente na hora da gente acordar... É uma grande sacanagem do nosso organismo...

O resto do texto foi lindo, a sua análise muito interessante...

Beijocas